Como calcular o VGV de um empreendimento: o guia completo da base de toda viabilidade imobiliária
VGV é a base de toda viabilidade imobiliária. Veja a fórmula, a diferença entre bruto e líquido, como estimar o preço por m² e um exemplo completo de cálculo.
O VGV é o primeiro número que um incorporador calcula e o último que ele deveria arredondar. Ele define o tamanho do negócio, baliza quanto se pode pagar pelo terreno e determina se o projeto fecha. Ainda assim, é comum ver o termo usado de forma imprecisa, confundindo o potencial de venda com o que de fato entra no caixa. Um erro de 5% na estimativa de preço por m² vira um erro de milhões na decisão de compra do terreno. Este guia destrincha como calcular o VGV corretamente, da fórmula básica aos indicadores que nascem dele.
Por que o VGV é o número mais importante e o mais mal usado
Todo estudo de viabilidade começa pela receita potencial. Antes de orçar obra, negociar terreno ou desenhar a tabela, o incorporador precisa saber qual é o tamanho do bolo. Esse tamanho é o VGV. A partir dele, cada custo é dimensionado como uma fração: terreno, construção, comercialização, tributos e despesas administrativas. Se o VGV está superestimado, toda a cascata fica otimista, e o projeto que parecia render 18% de margem entrega 6%, ou prejuízo.
O problema é que o VGV é frequentemente comunicado de forma inflada. Material de venda costuma exibir o VGV bruto, no preço cheio, sem descontar permuta nem abatimentos. Quem usa esse número para decidir o negócio paga caro demais pelo terreno e descobre o erro tarde demais.
O que é VGV, exatamente
O VGV (Valor Geral de Vendas) é a soma do valor de venda de todas as unidades comercializáveis de um empreendimento, considerando o preço de tabela no lançamento e ocupação de 100%. É uma fotografia do potencial bruto de receita: o quanto o projeto geraria se cada apartamento, sala, loja ou lote fosse vendido pelo preço previsto.
Três coisas que o VGV não é:
- Não é faturamento. O faturamento depende da velocidade de vendas e dos recebimentos ao longo do tempo.
- Não é lucro. O lucro só aparece depois de subtrair todos os custos.
- Não é caixa. A obra consome recursos antes de as vendas os reporem.
VGV bruto e VGV líquido: a diferença que muda a conta
O VGV bruto considera todas as unidades pelo preço cheio de tabela. O VGV líquido desconta o que não vira receita própria da incorporadora:
- Permuta física: unidades entregues ao proprietário do terreno como pagamento. Se 15% das unidades vão para o terreno, esses 15% saem da receita da incorporadora.
- Permuta financeira: um percentual sobre o VGV pago ao dono do terreno conforme as vendas acontecem. Também reduz a receita líquida.
- Descontos de tabela e campanhas: abatimentos de lançamento, condições especiais, bônus de pontualidade.
Tratar bruto e líquido como sinônimos é o erro mais comum. Em uma permuta de 15% a 20%, o VGV líquido fica muito abaixo do número anunciado. É o VGV líquido que deve orientar a decisão de compra do terreno e o cálculo de margem.
A fórmula do VGV e seus componentes
A fórmula básica é direta:
VGV = Área privativa vendável (m²) × Preço médio de venda (R$/m²)
Três componentes a entender:
- Área privativa vendável. É a soma da área privativa de todas as unidades à venda, não a área total construída. A área total inclui circulação, áreas comuns, garagens e áreas técnicas, que não são vendidas por m² da mesma forma. O potencial construtivo do terreno, definido pelo coeficiente de aproveitamento do zoneamento, determina quanta área se pode erguer; a área privativa vendável é a parcela dessa área que vira produto.
- Preço médio de venda por m². O input mais sensível e mais difícil de estimar. Pequenas variações aqui movem o VGV de forma desproporcional.
- Mix de produto. Número de unidades, tipologias e metragens. Em projetos com tipologias variadas, a média esconde diferenças relevantes de preço por andar, posição e vista.
Por isso, no estudo inicial usa-se a versão por média; na tabela de vendas definitiva, soma-se unidade a unidade, porque andar, face solar, vista e metragem alteram o preço por m².
Como estimar o preço de venda por m²
O preço por m² é onde mora o risco da conta. Estimá-lo bem exige:
- Comparáveis reais. Empreendimentos semelhantes na mesma região, no mesmo padrão, lançados recentemente. Atenção à diferença entre preço ofertado, o que está na tabela, e preço transacionado, o que o comprador de fato pagou, já com desconto. Bancos de dados de mercado como os da Secovi-SP e os indicadores da ABRAINC ajudam a calibrar.
- Ajuste por atributos. Localização, padrão de acabamento, lazer, eficiência da planta e marca do empreendimento justificam prêmios ou descontos sobre o comparável.
- Curva de preços por fase. O preço de pré-lançamento não é o preço de tabela cheia. A viabilidade deve trabalhar com o preço médio ponderado ao longo do ciclo de vendas, não com o pico.
Estimar o preço pelo otimismo do empreendedor, e não pelos comparáveis, é a causa número um de VGV inflado.
Exemplo prático: o VGV de uma torre de 80 unidades
Considere um terreno cujo potencial construtivo comporta uma torre com o seguinte mix (números ilustrativos):
- 40 unidades de 2 dormitórios, 60 m² privativos
- 30 unidades de 3 dormitórios, 85 m²
- 10 coberturas, 140 m²
Passo 1, área privativa vendável:
- 40 × 60 = 2.400 m²
- 30 × 85 = 2.550 m²
- 10 × 140 = 1.400 m²
- Total = 6.350 m²
Passo 2, preço por m² por tipologia (coberturas com prêmio):
- 2 dormitórios: R$ 11.000/m²
- 3 dormitórios: R$ 12.000/m²
- Coberturas: R$ 14.500/m²
Passo 3, VGV por tipologia:
- 2 dormitórios: 2.400 × 11.000 = R$ 26,4 mi
- 3 dormitórios: 2.550 × 12.000 = R$ 30,6 mi
- Coberturas: 1.400 × 14.500 = R$ 20,3 mi
- VGV bruto = R$ 77,3 milhões
Passo 4, do bruto ao líquido. Permuta física de 15% das unidades ao dono do terreno, cerca de R$ 11,6 mi, mais 2% de descontos médios de campanha, cerca de R$ 1,5 mi:
- VGV líquido ≈ R$ 64,2 milhões
A diferença entre os R$ 77,3 mi anunciáveis e os R$ 64,2 mi de receita própria é exatamente o que separa uma decisão de terreno sadia de uma armadilha.
Do VGV à viabilidade: a cascata de custos
O VGV é a linha de cima. Dele se derivam, em percentual, as grandes massas de custo. Faixas típicas no alto padrão, que variam por praça e produto:
- Terreno: 15% a 20% do VGV em compra direta, ou o equivalente em permuta.
- Construção: a maior massa, frequentemente 40% a 55% do VGV, dependendo do padrão e do custo do m² construído.
- Comercialização: corretagem de 4% a 6% mais verba de marketing e stand, somando algo entre 6% e 10%.
- Tributos: incorporações sob patrimônio de afetação podem recolher tributos federais de forma unificada pelo RET, hoje em 4% da receita (Lei 10.931/2004).
- Despesas: projetos, aprovações, taxas, administração e financeiras.
- Resultado: o que sobra. A margem líquida sobre o VGV no alto padrão costuma ficar entre 15% e 20%.
Acompanhar índices de custo como o CUB do Sinduscon e o INCC da FGV é o que mantém a coluna de construção honesta ao longo da obra, evitando que a inflação setorial coma a margem projetada.
Ferramenta de apoio
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Abrir a calculadora de viabilidadeOs indicadores que nascem do VGV
O VGV não é um número solto; ele alimenta os indicadores que de fato decidem o investimento:
- Margem sobre VGV: resultado dividido pelo VGV líquido. A leitura mais rápida de saúde do projeto.
- Exposição máxima de caixa: o ponto de maior necessidade de recursos antes de as vendas reporem o investido. Mede o risco financeiro real.
- TIR e VPL: a taxa interna de retorno e o valor presente líquido trazem o tempo para a conta. Dois projetos com a mesma margem sobre VGV podem ter TIR muito diferentes conforme a velocidade de vendas e o cronograma de obra.
- VSO (velocidade de vendas sobre oferta): o ritmo em que o estoque é vendido. Define se o VGV projetado vira caixa rápido ou estoque parado.
- Payback: quando o projeto devolve o capital aportado.
VGV de lançamento x VGV realizado
O VGV de lançamento é projeção; o VGV realizado é o que o mercado de fato pagou. A distância entre os dois mede a qualidade do estudo e da precificação. Tabela otimista, VSO abaixo do previsto e descontos para girar estoque corroem o número. Por isso o VGV realizado, e não o anunciado, é o que deveria orientar o próximo projeto e calibrar as premissas de preço da próxima viabilidade.
Quanto pagar pelo terreno a partir do VGV
A pergunta inversa é tão importante quanto o cálculo direto. Conhecido o VGV líquido e a margem-alvo, o terreno entra como variável de ajuste. Se o VGV líquido é R$ 64 mi e os custos de obra, comercialização, tributos, despesas e a margem desejada consomem 82% do VGV, sobram 18% para o terreno, cerca de R$ 11,5 mi. Pagar acima disso significa comprar margem do próprio bolso. É por isso que o VGV bem calculado é a melhor ferramenta de negociação de terreno que um incorporador tem.
Erros comuns ao calcular o VGV
- Confundir VGV bruto com líquido e pagar caro demais pelo terreno.
- Usar preço por m² otimista, descolado dos comparáveis transacionados da região.
- Ignorar a permuta no cálculo da receita própria.
- Tratar o VGV como lucro ou como caixa.
- Usar o preço de pico em vez do preço médio ponderado do ciclo.
- Não revisar o número conforme o INCC e o CUB avançam ao longo da obra.
TBO · think, build, own
O VGV fecha no papel. Falta defender esse número no lançamento.
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