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Perspectivas do mercado imobiliário no Brasil em 2026

Juros, funding, alto padrão e novos modelos: a leitura da TBO sobre as forças que movem o mercado imobiliário brasileiro em 2026 e o que muda para quem incorpora.

Marco Andolfato··12 min de leitura
Perspectivas do mercado imobiliário no Brasil em 2026

O mercado imobiliário brasileiro não é um só, e em 2026 essa verdade ficou mais nítida do que nunca. Enquanto São Paulo digere estoque em alguns segmentos, capitais do Sul aceleram lançamentos; enquanto o crédito tradicional aperta, o funding se reinventa; enquanto o mid-market sente os juros, o alto padrão segue resiliente. Ler o setor como uma média nacional é a forma mais rápida de errar a decisão. Esta é a leitura da TBO sobre as forças que movem o ano.

O custo do crédito e a sombra da Selic

A taxa básica de juros segue como a variável que mais condiciona o comportamento do comprador financiado. Quando o crédito encarece, o mid-market, mais dependente de financiamento, desacelera primeiro. O acompanhamento da política monetária do Banco Central deixou de ser tema de economista para virar item de pauta de comitê de incorporadora. A sensibilidade a juros, porém, não é uniforme: ela é máxima no produto de entrada e mínima no ultra alto padrão.

O funding mudou de estrutura

A poupança, historicamente o motor do crédito imobiliário, perde participação ano após ano. Em seu lugar crescem instrumentos de mercado de capitais como LCI, CRI e fundos. Essa transição muda quem financia a incorporação e em que condições. Entender a nova estrutura de funding deixou de ser opcional para quem quer escalar, e fontes como a Abecip e a CBIC ajudam a acompanhar o movimento.

Vista aérea ampla de cidade brasileira
O mercado se lê praça por praça, não como média nacional. Foto: Jimmy Woo / Unsplash

Alto padrão resiliente, mid-market sensível

O comprador de alto padrão depende menos de financiamento e mais de patrimônio e renda, o que torna esse segmento mais resiliente em ciclos de juros altos. É por isso que, mesmo em anos apertados, lançamentos de alto padrão em localizações consolidadas seguem encontrando demanda. Já o mid-market e o produto de entrada dependem de crédito acessível e de programas habitacionais, e sentem o ciclo de forma mais direta. Dados setoriais da ABRAINC ajudam a separar os dois movimentos.

Vista aérea de bairro residencial
A sensibilidade a juros é máxima na entrada e mínima no ultra alto padrão. Foto: Laura Chouette / Unsplash

O eixo geográfico se desloca

São Paulo segue como o maior mercado, mas o crescimento relativo migra. Capitais do Sul, com Curitiba à frente, registram valorização e ritmo de lançamentos acima da média nacional, puxados por renda, qualidade de vida e oferta de terreno melhor precificada. Para o incorporador, isso reforça a regra: a decisão é local. O mesmo produto que sobra em uma praça falta em outra a poucas centenas de quilômetros.

Material de apoio

O panorama de dados e fontes do mercado em um só lugar

O Guia do Mercado Imobiliário da TBO reúne dados, fontes e tendências para posicionar o próximo lançamento com base em evidência, não em achismo.

Abrir o guia do mercado

Os modelos que avançam

  • Branded residences: a marca como produto, com São Paulo já no mapa global do luxo residencial.
  • Multifamily e coliving: renda recorrente e locação profissional ganhando escala onde o preço de venda descolou da renda.
  • Senior living de alto padrão: a longevidade criando uma categoria que o marketing imobiliário ainda aprende a vender.
  • Tecnologia de venda: archviz, plataformas interativas e gêmeos digitais encurtando a distância entre o render e a decisão.
Fachada de edifício de alto padrão
Branded residences e novos modelos redesenham o produto em 2026. Foto: Aalo Lens / Unsplash

O que muda para quem incorpora

Em 2026, a vantagem competitiva está menos no custo e mais na leitura: escolher a praça certa, o produto certo e a estrutura de funding certa. O VGV bem calculado, o aproveitamento bem dimensionado e a marca bem posicionada valem mais do que nunca quando o crédito é caro e o comprador, seletivo.

Selic a 14,25% e o crédito que apareceu mesmo assim

O Copom cortou a taxa básica de 14,50% para 14,25% ao ano na reunião encerrada em 17 de junho de 2026, terceiro corte consecutivo do ciclo, em decisão unânime, segundo o Seu Dinheiro. Para um comitê de incorporadora, importa o comportamento do crédito sob esse nível de juros. Em 2025, com a Selic ainda em 15%, as concessões de financiamento imobiliário somaram R$ 324 bilhões, alta de 3% sobre 2024, segundo o balanço do financiamento imobiliário da ABECIP. O próprio setor esperava retração.

A composição desse resultado explica o ano. Os financiamentos com recursos da poupança, o SBPE, recuaram 13%. Os contratos com FGTS cresceram 9%. E as operações com recursos livres, aquelas que o banco faz fora do direcionamento obrigatório, saltaram 246% e chegaram a R$ 31 bilhões. O saldo das cadernetas fechou dezembro em R$ 766 bilhões, queda de 0,9% no ano.

O funil de crédito do comprador de médio padrão trocou de cano ao longo de 2025. Quem montou o plano de vendas contando com a mesma cesta de linhas de 2023 encontrou tabelas diferentes, prazos diferentes e um gerente de banco com outro apetite. Quem conversou com o time de crédito das instituições antes de travar a tabela de lançamento chegou ao ponto de venda com o produto financiável.

Os recursos livres multiplicaram o volume por quase três vezes e meia em doze meses. Essa linha não obedece a uma regra única de direcionamento, e cada banco calibra spread, prazo e percentual financiado conforme o próprio balanço. Duas propostas idênticas na tabela do estande chegam a mensalidades diferentes dependendo de qual instituição analisou o comprador. O gerente comercial que trabalha com um único parceiro financeiro entrega ao cliente uma versão só do preço.

Em um ciclo de juros altos, a estrutura de funding disponível para o comprador vira restrição de projeto, no mesmo nível do coeficiente de aproveitamento e do custo do terreno.

O que muda no funding imobiliário brasileiro em 2026?

Três mudanças. O Conselho Monetário Nacional elevou o teto do imóvel financiável pelo SFH de R$ 1,5 milhão para R$ 2,25 milhões. O Banco Central começou a liberar o compulsório da poupança para crédito habitacional. E a ABECIP projeta alta de 16% nas concessões em 2026, com o SBPE em R$ 180 bilhões e o FGTS em R$ 145 bilhões.

O teto novo é o item que mais mexe com produto de médio e alto padrão nas capitais. Dentro do SFH, os juros ficam limitados a 12% ao ano mais atualização pela TR, conforme apurou O Globo em reportagem reproduzida pela ABECIP. Um apartamento de R$ 2 milhões em Pinheiros, no Batel ou na Barra da Tijuca passou a caber numa linha regulada que antes o excluía. A Caixa ampliou de 70% para 80% a fatia financiável do valor do imóvel, o que reduz a entrada exigida do comprador de renda alta pouco disposto a desmontar posição em renda fixa rendendo perto da Selic.

Do lado do lastro, a poupança perdeu peso relativo e o mercado de capitais ocupou o espaço. A ABECIP mediu assim a composição do funding do crédito imobiliário:

InstrumentoParticipação em 2024Participação em 2025
Poupança32%29%
LCI17%19%
Fundos de investimento imobiliário11%11%
CRI9%10%
LIG5%4%

A presidente da ABECIP, Priscilla Ciolli, atribuiu parte do fôlego de 2025 à liberação do compulsório, que segundo ela injetou R$ 38 bilhões no sistema. O Banco Central estima recursos adicionais de R$ 52,4 bilhões só em 2026, número que o InvestNews publicou. O histórico da faixa 4 do Minha Casa, Minha Vida calibra a expectativa: criada para renda entre R$ 8,6 mil e R$ 12 mil, imóvel de até R$ 500 mil e juros de 10,5% ao ano, ela rendeu à Caixa cerca de 7 mil operações no primeiro ano, diante de um universo estimado em 120 mil clientes potenciais. Regra publicada e contrato assinado andam em ritmos diferentes.

São Paulo lança mais do que vende, e o estoque conta a história

A capital paulista lançou 139,7 mil unidades residenciais em 2025, avanço de 34% sobre 2024, e comercializou 113 mil, alta de 9%. Os números saem da pesquisa do Secovi-SP, divulgados pelo Sinduscon-SP. O VGV do ano ficou em R$ 58,8 bilhões, crescimento de 3% já descontada a inflação. A cidade encerrou dezembro com 85,2 mil unidades em oferta e VSO acumulada de 56,4%.

Dentro desses agregados convivem dois mercados com sinais opostos. O Minha Casa, Minha Vida respondeu por 64% das unidades vendidas e cresceu 25%. Os demais segmentos ficaram com 36% e recuaram 11% na mesma comparação. A alta de 9% nas vendas totais esconde uma queda de dois dígitos no produto de médio padrão que boa parte das incorporadoras de capital aberto carrega em estoque.

Abril de 2026 repetiu o padrão em escala mensal. O Secovi-SP registrou 11.620 unidades lançadas contra 9.588 vendidas, com a oferta subindo para 85,9 mil unidades e VSO do mês em 10%, conforme compilação do Chaves na Mão sobre a pesquisa mensal do Secovi-SP. O programa habitacional respondeu por 75% das unidades lançadas e 69% das vendidas. A faixa de R$ 275 mil a R$ 400 mil ficou com 52% dos lançamentos e 47% das vendas. Compactos de dois dormitórios ficaram com 53% dos lançamentos e 64% das vendas.

Esse conjunto descreve um mercado concentrado. O apetite se acumula em duas pontas bem definidas, o produto habitacional subsidiado e o topo da pirâmide, e a barriga da curva é onde o estoque envelhece. Um diretor de incorporadora que aloque capital pela média da cidade compra o pedaço errado dessa curva.

A curva dos R$ 5 milhões e o que ela cobra da marca

O dado mais expressivo de 2025 em São Paulo veio do topo. O Secovi-SP contabilizou 1.879 unidades lançadas acima de R$ 5 milhões na capital, contra 698 em 2024, segundo levantamento publicado pelo Portas. A série dos últimos anos mostra o formato da curva:

AnoUnidades lançadas acima de R$ 5 milhões em São Paulo
2021424
2022503
2023683
2024698
20251.879

Ely Wertheim, presidente executivo do Secovi-SP, associou o salto a uma demanda represada que encontrou espaço regulatório com as revisões do Plano Diretor. A geografia é estreita: Moema, Jardim Paulista e Itaim Bibi concentraram 61% do estoque que o mercado entregou nesse recorte nos últimos cinco anos.

Quase triplicar a oferta de um segmento em um ano cria uma consequência comercial previsível. O comprador de super-prime em Moema hoje escolhe entre dezenas de plantas parecidas, com fichas técnicas parecidas e escritórios de arquitetura que se repetem de um empreendimento para o outro. A diferenciação passa a depender do que não cabe na tabela de vendas. Antes de aprovar o próximo lançamento nessa faixa, vale checar:

  1. Densidade de concorrência no raio de 1,5 km. Quantos empreendimentos acima de R$ 5 milhões estarão em comercialização simultânea na mesma microrregião no mês do seu lançamento.
  2. Autoria reconhecível. Se o nome do arquiteto, do paisagista ou do designer de interiores aparece nos três concorrentes mais próximos, ele para de sustentar prêmio de preço.
  3. Prova de entrega. Comprador desse tíquete pesquisa o histórico da incorporadora antes de pisar no estande, e foto de obra entregue circula em grupo de corretor.
  4. Narrativa de uso. O comparativo de área privativa se esgota numa planilha. Descreva a vida que o projeto propõe e a conversa muda de terreno.
  5. Consistência entre render e obra. Archviz que promete acabamento fora do orçamento gera distrato caro e resenha ruim de mercado.

O mapa da valorização saiu do eixo Rio-São Paulo

O Índice FipeZAP fechou 2025 com alta de 6,52% no preço de venda de imóveis residenciais, segunda maior variação em onze anos, atrás apenas dos 7,73% de 2024. O resultado superou o IPCA do período, de 4,18%, e contrastou com o IGP-M, que recuou 1,05%. O metro quadrado médio nacional chegou a R$ 9.611 em dezembro, conforme apuração do InfoMoney sobre o Índice FipeZAP.

A distribuição desse ganho desmonta a leitura de média nacional. Salvador subiu 16,25% no ano, João Pessoa 15,15% e Vitória 15,13%. São Paulo avançou 4,56% e o Rio de Janeiro, 5,21%. Curitiba fechou 2025 com valorização de 9,08%, acima do índice nacional, conforme o balanço anual do FipeZAP publicado pelo Portas, e já registrou queda de 0,61% em dezembro. Campo Grande caiu 1,23% no mesmo mês.

O recorte por tipologia repete a lógica de acessibilidade. Apartamentos de um dormitório valorizaram 8,05% em 2025 e alcançaram R$ 11.669 o metro quadrado, enquanto unidades de quatro ou mais dormitórios subiram 5,34%. Compacto bem localizado carrega prêmio de preço por metro quadrado que a unidade grande não sustenta, e isso muda a conta de VGV por pavimento já no estudo de massa.

Para o incorporador que opera fora do eixo tradicional, Salvador e João Pessoa entregaram em 2025 uma valorização que São Paulo não entregou. Isso justifica a viagem, a pesquisa primária e a conversa com o cartório local antes de qualquer aquisição de terreno em praça nova. Quem planeja lançamento para 2027 precisa olhar a desaceleração de dezembro, que apareceu em capitais que lideraram o ano, Curitiba entre elas. Índice de anúncio reage antes do índice de transação, e uma praça que valorizou perto de dois dígitos em doze meses costuma trazer, junto com o preço, proprietários de terreno que já reprecificaram o próprio estoque. A margem do projeto se decide na compra.

A obra em 2026: emprego cheio, custo pressionado, ritmo desigual

O PIB da construção cresceu 2,9% no primeiro trimestre de 2026 sobre o quarto trimestre de 2025, revertendo a queda de 2,4% do período anterior, segundo a CBIC. A entidade projeta expansão de 1,2% no ano. No mercado nacional de incorporação, os lançamentos avançaram 13,88% em 2025 e somaram 471.769 unidades, com vendas de 433.681 unidades, alta de 7,18%. A infraestrutura recebeu R$ 280 bilhões em investimentos no ano, 3% a mais que em 2024.

O emprego é o dado que mais aperta a conta de obra. Entre janeiro e abril de 2026, a construção gerou 143.547 postos formais, 20,5% de tudo o que o país criou no período e crescimento de 8,11% sobre o mesmo intervalo de 2025. Ieda Vasconcelos, economista-chefe da CBIC, credita o desempenho ao orçamento recorde do FGTS para habitação popular, aos incentivos do Minha Casa, Minha Vida, ao investimento em infraestrutura e ao mercado de trabalho resiliente. Canteiro disputando mão de obra com canteiro pressiona salário, e salário pressiona cronograma.

Isso muda a decisão de lançar. Uma obra que atrasa doze meses num mercado com 85,9 mil unidades em oferta na capital paulista chega para vender diante de uma concorrência que ninguém modelou na viabilidade. Incorporadoras que entram na comercialização com marca consolidada e material de venda pronto encurtam o tempo de estande e o custo de aquisição por unidade. Esse é o trabalho que a TBO faz em branding, arquitetura e conteúdo para incorporadoras, do posicionamento do produto ao material que o corretor leva para a mesa.

Para os recortes por praça e por segmento, veja o hub de análise de mercado.

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Perguntas frequentes

Quatro forças dominam: o custo do crédito ligado à Selic, a transformação do funding com a queda da poupança, a resiliência do alto padrão frente ao mid-market sensível a juros, e a ascensão de novos modelos como branded residences, multifamily e senior living.

A Selic condiciona o comprador financiado. O mid-market, mais dependente de crédito, desacelera primeiro; o alto padrão, menos dependente de financiamento, é mais resiliente.

A caderneta perde participação e dá lugar a instrumentos de mercado de capitais como LCI, CRI e fundos, mudando quem financia a incorporação e em que condições.

Branded residences, multifamily e coliving, senior living de alto padrão e tecnologia de venda como archviz, plataformas interativas e gêmeos digitais.

Não. Ele varia muito por praça. São Paulo digere estoque em alguns segmentos enquanto capitais do Sul aceleram. A decisão de incorporação é local.

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